Apenas agora quis ler os e-mails que Eric me enviou sobre a já não tão falada tragédia no Haiti. Quando o assunto envolve o tema do sofrimento já fico receoso de tecer algum comentário pela simples razão dessa ser minha “pedra no meio do caminho”. Sou um cristão pouco cristão, um crente quase sem fé, um religioso às portas de saída de qualquer igreja, portanto, minhas reflexões vão colocar em evidência aquilo que tenho digerido dia a dia, que tem sido razão para minha profunda tristeza, angústia e desespero. Para essa última palavra, tenho sinônimos pessoais: liberdade, amor à vida, sinceridade, foco no presente, foco no corpo.
Não querendo ser intempestivo e muito menos prolixo, imagino que a resposta para todo acontecimento (memorizem essa palavra) mais plausível para minha ínfima mente é acaso e destino.
Primeiramente foquemos no acontecimento. Acontecimento é o movimento no tempo gerando rastros pela história. O devir é acaso e destino. Acaso porque é livre. Destino porque não o é. Mas, talvez a pergunta do leitor seja: até onde vai a escolha para que se designe um culpado para o mal? Bingo! A resposta é: não sei. Mas, imagino que a complexidade do acontecimento que abrange tudo o que fizeram, o que fazemos e o que farão, determina algumas nuanças desse quadro pintado com ouro e sangue. Todavia, como dito, o acontecimento também é acaso e acaso é Caos e todo Caos é desordem e selvageria, e toda selvageria é liberdade e da liberdade há resquícios de Cosmos, ordem, complexidade e destino.
Como escreveu o filósofo André Conte-Sponville citando Buda: “Todo sofrimento nasce da esperança”. Quem espera algo remete ao futuro sua curta vida em detrimento do acontecimento no instante. Todos nós somos assim. Uns mais outros menos. Mas, o interessante é notar que quando queremos entender a causa de todo acontecimento nos perdemos na limitada lei da causalidade. Será que o Real se restringe à causas e efeitos? Será que existe controle para o acontecimento? Acho que não. O acontecimento é um cavalo selvagem que, sem dono nem domador, corre livre pelas colinas e vales da realidade incognoscível.
E Deus? – devem me perguntar. Qual deus? – repondo questionando. Para cada crença existe um deus diferente, com agir diferente, com pensamentos e gostos diferentes, com sentimentos diferentes... Ora, para cada deus há uma forma de responder o porquê do acontecimento. O problema é querer unificar todas as visões de deuses num só deus. Quem é Deus? – eu pergunto. Perdi quase toda fé ao ler sobre Auschwitz. Tenho lido Dietrich Bonhoeffer e suas reflexões sobre Deus e o Holocausto quando estava preso num campo de concentração, pouco antes de ser enforcado. Essa leitura lança luz sobre alguns desses porquês, embora seja a visão dele e não minha.
Quando se aprende a não ter esperanças muita carga é jogada pelo caminho e aprende-se a amar as pedras que não se consegue remover.
Rovilson Ribeiro
Vitória da Conquista – Ba, 24 de fevereiro de 2010.
Não querendo ser intempestivo e muito menos prolixo, imagino que a resposta para todo acontecimento (memorizem essa palavra) mais plausível para minha ínfima mente é acaso e destino.
Primeiramente foquemos no acontecimento. Acontecimento é o movimento no tempo gerando rastros pela história. O devir é acaso e destino. Acaso porque é livre. Destino porque não o é. Mas, talvez a pergunta do leitor seja: até onde vai a escolha para que se designe um culpado para o mal? Bingo! A resposta é: não sei. Mas, imagino que a complexidade do acontecimento que abrange tudo o que fizeram, o que fazemos e o que farão, determina algumas nuanças desse quadro pintado com ouro e sangue. Todavia, como dito, o acontecimento também é acaso e acaso é Caos e todo Caos é desordem e selvageria, e toda selvageria é liberdade e da liberdade há resquícios de Cosmos, ordem, complexidade e destino.
Como escreveu o filósofo André Conte-Sponville citando Buda: “Todo sofrimento nasce da esperança”. Quem espera algo remete ao futuro sua curta vida em detrimento do acontecimento no instante. Todos nós somos assim. Uns mais outros menos. Mas, o interessante é notar que quando queremos entender a causa de todo acontecimento nos perdemos na limitada lei da causalidade. Será que o Real se restringe à causas e efeitos? Será que existe controle para o acontecimento? Acho que não. O acontecimento é um cavalo selvagem que, sem dono nem domador, corre livre pelas colinas e vales da realidade incognoscível.
E Deus? – devem me perguntar. Qual deus? – repondo questionando. Para cada crença existe um deus diferente, com agir diferente, com pensamentos e gostos diferentes, com sentimentos diferentes... Ora, para cada deus há uma forma de responder o porquê do acontecimento. O problema é querer unificar todas as visões de deuses num só deus. Quem é Deus? – eu pergunto. Perdi quase toda fé ao ler sobre Auschwitz. Tenho lido Dietrich Bonhoeffer e suas reflexões sobre Deus e o Holocausto quando estava preso num campo de concentração, pouco antes de ser enforcado. Essa leitura lança luz sobre alguns desses porquês, embora seja a visão dele e não minha.
Quando se aprende a não ter esperanças muita carga é jogada pelo caminho e aprende-se a amar as pedras que não se consegue remover.
Rovilson Ribeiro
Vitória da Conquista – Ba, 24 de fevereiro de 2010.
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